quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Imunorregulação na malaria vivax e polimorfismo de IL-10


Increased interleukin-10 and interferon-γ levels in Plasmodium vivax malaria suggest a reciprocal regulation which is not altered by IL-10 gene promoter polymorphism
Post de Lígia C. L. de Souza
Quando tratamos de doenças infecciosas, a resposta imune adquirida pode representar tanto a possibilidade de eliminar o agente etiológico como a de gerar uma resposta exacerbada responsável (em grande parte) pelos sintomas. Para a malária humana essa retórica é bastante pertinente. A resposta ao parasita é coordenada por mecanismos pró-inflamatórios e por mecanismos moduladores. Esse balanço entre as citocinas é responsável pelas diferentes expressões da doença. Esse jogo de citocinas não está totalmente desvendado em infecções por Plasmodium vivax, mas estudos apontam que altos níves de citocinas pró-inflamatórias (TNF, IFN-γ e IL-6) são encontrados em manifestações graves da doença, enquanto que baixos níveis de citocinas reguladoras (TGF-β e IL-10) são associadas a doença aguda (ver gráfico). 


Gráfico adaptado de: Andrade BB et al, 2010. NI: non-infected; Asy: asymptomatic malaria; Mild: mild malaria; Sev: severe malaria. 
Dentre os fatores que podem interferir na produção dessas citocinas, está o polimorfismo de genes codificadores. Neste cenário, o estudo de Medina et al, recentemente publicado no Malaria Journal, retrata a relação entre a frequência de polimorfismos, os níveis de citocinas IL-10/IFN-γ e parasitemia. A partir de amostras de sangue de 132 pacientes infectados com P.vivax e 86 controles (estado do Pará), foram realizadas dosagens de citocinas IL-12, IL-4, IFN-γ e IL-10 e PCR do polimorfismo SNP (Single Nucleotide Polymorphism) do gene do IFN-y  (IFN-y +874 A/T) e do gene da IL-10 (IL-10 -1082 G/A). O primeiro polimorfismo está associado com um aumento da produção IFN-y em tuberculosos e o segundo, vinculado a uma redução da expressão de IL-10 em pacientes com malária falciparum. 
Encontraram-se níveis aumentados de IL-10 e IFN-y em pacientes infectados em relação ao grupo controle, bem como um aumento das citocinas condizente com o aumento de parasitemia. A concentração de IFN-y foi maior em pacientes primoinfectados, o que sugere uma resposta mais intensa na primeira infecção. Ao analisar o polimorfismo do INF-y, foi constatado um efeito redutor na produção de IFN-y para os homozigotos selvagens, mas sem relação com a parasitemia. Já o polimorfismo de IL-10, não foi estatisticamente significante na redução dos níveis dessa citocina. Não houve associação entre o genótipo das referidas citocinas e a parasitemia. Por fim, o estudo sugere que a regulação negativa de IL-10 e o polimorfismo de IFN-y fornecem mecanismos de controle em P. vivax. 
O estudo foi pioneiro ao tentar relacionar o polimorfismo de IL10, uma importante citocina reguladora, apontada como importante protetora na malária. Ele demonstrou que o polimorfismo regulador de IFN-y e de IL-10 não está relacionado com o controle da parasitemia. Demonstra-se, portanto, uma necessidade de maiores estudos em malária P. vivax, investigando fatores moduladores da resposta imune, fatores de proteção e possíveis alvos terapêuticos no combate a essa doença.
Andrade BB, Reis-Filho A, Souza-Neto SM, Clarêncio J, Camargo LMA, Barral A, Barral-Netto M. Severe Plasmodium vivax malaria exhibits marked inflammatory imbalance. Malar J.2010;9:13. doi: 10.1186/1475-2875-9-13
Medina et al. Increased interleukin-10 and interferon-g levels in Plasmodium vivax malaria suggest a reciprocal regulation which is not altered by IL-10 gene promoter polymorphism. Malaria Journal 2011, 10:264  doi: 10.1186/1475-2875-10-264

2 comentários:

  1. Muito legal este post. Será que seria interessante começarmos a procurar por polimorfismos similares na Leishmaniose, doença na qual IL-10 também exerce um efeito regulador importante? Gostei!

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  2. O fato de IL-10 e IFNg interferirem na gravidade da malária sem uma correlação direta com a parasitemia sugere o fenômeno da tolerância à infecção. QUando a balança pende para o lado da IL10, ou uma menor razão IFNg/IL10, há uma maior tolerância à infecção, em que o hospedeiro "atura" o plasmódio com um mínimo de imunopatologia. Na Leishmaniose visceral, a IL-10 se correlaciona positivamente com a carga parasitária e gravidade da doença. Isto sugere que talvez na leishmaniose a IL-10 tenha uma função mais importante no killing do parasita, mas não sabemos se a doença seria pior sem a IL-10. O NIH tem um trial em andamento na Índia testando anti-IL10 em pacientes de leishmaniose visceral. A expectativa é que a redução da IL-10 biodisponível aumentaria o clearance do parasito. É ver pra crer. Se a IL10 tem alguma função semelhante na malaria ou leishmaniose visceral, talvez haja uma queda da tolerância à infecção e os pacientes piorem. São somente especulações que surgem com a instigação de post.
    Muito legal mesmo.
    Abraços

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