sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Saiu o resultado do Edital Universal do CNPq



Saiu o resultado do Edital Universal do CNPq (aqui)

Você sabe estudar?


Responda as perguntas abaixo, com sim ou não:
  • Prepara um local calmo;
  • Se concentra;
  • Faz um programa inalterável de estudos;
  • Faz uma imersão intensa no tema que necessita aprender;
  • Estabelece (e cumpre) objetivos bem definidos.
Respondeu sim a todas as perguntas acima?
Então,
...
você pode estar no caminho errado para estudar.
As velhas idéias sobre a melhor maneira de estudar não são necessariamente válidas:
Mudar de ambiente durante o estudo pode ajudar a reter o que se aprende;
Misturar conteúdos em substituição a se dedicar por muito tempo ao mesmo tema também pode ajudar;
A imersão intensa num assunto pode ajudar a ir bem num teste mas não ajuda tanto o aprendizado. Estudar um pouco, deixar um tempo e voltar ao tema pode ajudar na retenção: “the brain, when it revisits material at a later time, has to relearn some of what it has absorbed before adding new stuff — and that that process is itself self-reinforcing.
“The idea is that forgetting is the friend of learning,” said Dr. Kornell. “When you forget something, it allows you to relearn, and do so effectively, the next time you see it.”
Você acredita que os estudantes têm estilos diferentes de aprender e os professores diferentes estilos de ensinar e isso influencia o aprendizado e outras coisas deste tipo?
Precisa ler o artigo de Benedict Carey “Forget What You Know About Good Study Habits” no NY Times que revê (em linguagem leiga) vários estudos atuais sobre educação (aqui). Cheguei no artigo seguindo um twit de Ana Maria Barral (@Bio_prof): Sending it to my students...Via @nprnews: Think You Know How To Study? Think Again | n.pr/dAIZYb

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Uso da citometria multiparamétrica em ensaios clínicos

Post de Theolis Barbosa Bessa
Promover o debate sobre como obter os dados mais acurados possíveis partindo de amostras humanas é de extrema importância, levando-se em consideração as grandes lacunas que vêm sendo apontadas no conhecimento de doenças em que o comportamento dos sistemas orgânicos se afasta do que pode ser previsto em animais experimentais de uso corrente [1,2]. O avanço da instrumentação científica tem permitido a utilização cada vez mais intensa de investigações em amostras biológicas humanas como ponto de partida para a proposição e a avaliação de novos medicamentos e vacinas [3-6]. Não apenas mais amostras podem ser processadas em menor tempo, facilitando a avaliação da reprodutibilidade dos resultados em diferentes populações, como também maior número de parâmetros podem ser avaliados concomitantemente, permitindo associação entre variáveis com comportamento conhecido e/ou previsível com outras variáveis em estudo relevantes para o prognóstico e avaliação da proteção. 
Entre as metodologias disponíveis para análises multiparamétricas de células, a citometria de fluxo se destaca pela relativa facilidade de compor análises fenotípicas e funcionais em uma única amostra [3], e sua ampla utilização na pesquisa básica, no estudo de populações celulares diversas definidas por múltiplos marcadores em animais experimentais, contrasta com sua tímida participação em ensaios clínicos como auxiliar nas avaliações de drogas e vacinas experimentais em modelos humanos. Maecker e colaboradores [7] se debruçam sobre as razões que têm impedido a melhor utilização da citometria de fluxo na pesquisa de biomarcadores para este tipo de análises. Parte das limitações são inerentes à avaliação de amostras biológicas humanas, como a influência das variações circadianas e a compatibilidade entre preservação da integridade das amostras e a logística para transporte e avaliação das amostras. A solução de limitações relacionadas à técnica, sua padronização para diminuição da variabilidade inter-ensaio, sua automação para tornar a tarefa de análise de múltiplos parâmetros “user-friendly e o controle da qualidade dos dados têm recebido especial atenção e são abordadas em detalhe no artigo. 
[1] H.B. van der Worp, D.W. Howells, E.S. Sena, M.J. Porritt, S. Rewell, V. O'Collins, et al., Can Animal Models of Disease Reliably Inform Human Studies?, PLoS Med. 7 (2010) e1000245.
[2] R. Dixit, U.A. Boelsterli, Healthy animals and animal models of human disease(s) in safety assessment of human pharmaceuticals, including therapeutic antibodies, Drug Discovery Today. 12 (2007) 336-342.
[3] V.C. Maino, S. Ghanekar, L. Nomura, R. Balderas, The Future of Multicolor Flow Cytometry: A 21 st Century View, ([s.d.]).
[4] A.J. Qavi, A.L. Washburn, J. Byeon, R.C. Bailey, Label-Free Technologies for Quantitative Multiparameter Biological Analysis, Anal Bioanal Chem. 394 (2009) 121-135.
[5] S. Schnittger, M. Weisser, C. Schoch, W. Hiddemann, T. Haferlach, W. Kern, New score predicting for prognosis in PML-RARA+, AML1-ETO+, or CBFBMYH11+ acute myeloid leukemia based on quantification of fusion transcripts, Blood. 102 (2003) 2746-2755.
[6] U. Kammula, O. Serrano, Use of high throughput qPCR screening to rapidly clone low frequency tumour specific T-cells from peripheral blood for adoptive immunotherapy, Journal of Translational Medicine. 6 (2008) 60.
[7] H.T. Maecker, J.P. McCoy, M. Amos, J. Elliott, A. Gaigalas, L. Wang, et al., A model for harmonizing flow cytometry in clinical trials, Nat Immunol. 11 (2010) 975-978.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Twintrenvistas do SBI2010 já publicadas

Oscar Bruna-Romero - Desenvolvimento de vacinas recombinantes (aqui);
Johan van Weyenbergh - A importância do IFN tipo I nas patologias associadas ao HTLV-1 (aqui);
Aldina Barral - Aspectos da inflamação na patogênese da malária e da leishmaniose visceral (aqui);
Gabriel Victora - Uso de novas técnicas de microscopia para estudar o papel da dinâmica das células B do centro germinativo na maturação de afinidade (aqui);
Nance Nardi - Sobre células-tronco e seu nicho, focando nas implicações terapêuticas (aqui);
Sérgio Lira - Sobre um receptor para quimiocinas codificado pelo CMV (aqui);
Camila Oliveira - sobre a mesa "Frontiers in Imaging": "ver" a resposta imune acontecer está na fronteira do descobrimento (aqui).

Insights into the pathogenesis of vivax malaria

Conferência apresentada no Congresso da Sociedade Brasileira de Protozoologia em Foz do Iguaçu no dia 26.10.2010.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Limpar as mãos com álcool parece proteger mesmo.


Um artigo para contradizer Paul Valery. Ele afirmou que “Tout que est simple est faux, tout ce qui n’est pas simple est inutilisable”, mas parece que isto nem sempre é verdade. O artigo Effectiveness of alcohol-based hand disinfectants in a public administration: Impact on health and work performance related to acute respiratory symptoms and diarrhoea (BMC Infectious Diseases 2010, 10:250. doi:10.1186/1471-2334-10-250) mostra que limpar as mãos com desinfetantes à base de álcool pode ter um feito protetor na saúde. Há vários dispositivos que liberam estes desinfetantes e que se tornaram populares, principalmente após o pânico (exagerado) da gripe H1N1. Eu mesmo tive dúvidas da efetividade da medida de desinfeção das mãos por este meio em lugares públicos.
O estudo relatado é um estudo de grupo intervenção-controle, prospectivo e controlado, com o objetivo de avaliar o impacto epidemiológico (e econômico) dos desinfetantes de mãos à base de álcool em ambiente de trabalho. Um grupo recebeu o desinfetante de mãos e o outro permaneceu sem intervenção. Os desfechos avaliados foram sintomas respiratórios e gastrintestinais (e dias de trabalho), os quais foram avaliados por questionário mensal pelo período de um ano, num total de 1.230 pessoas mês.
A desinfecção das mãos foi efetiva:
“Hand disinfection reduced the number of episodes of illness for the majority of the registered symptoms. This effect became statistically significant for common cold (OR = 0.35 [0.17 - 0.71], p = 0.003), fever (OR = 0.38 [0.14-0.99], p = 0.035) and coughing (OR = 0.45 [0.22 - 0.91], p = 0.02). Participants in the intervention group reported less days ill for most symptoms assessed, e.g. colds (2.07 vs. 2.78%, p = 0.008), fever (0.25 vs. 0.31%, p = 0.037) and cough (1.85 vs. 2.00%, p = 0.024). For diarrhoea, the odds ratio for being absent became statistically significant too (0.11 (CI 0.01 - 0.93).”
Será necessário averiguar se a medida é igualmente eficiente em outras situações, mesmo porque os “Volunteers in public administrations in the municipality of the city of Greifswald” dificilmente podem representar tudo que se passa em outros países.
Conflito de interesse: Não tenho qualquer participação, nem ações, de companhias de desinfetantes nem de dispensadores de desinfetantes, mas os autores têm: “The authors declare a financial competing interest: GK is employed by Bode Chemie GmbH, Hamburg, Germany. NOH and AK received financial support for research from Bode Chemie in the past. All other authors declare no conflict of interest.”
Ilustração: Bactérias na mão.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A formação das melhores cidades para a ciência, usando a cientometria geográfica.


Há poucos dias a Nature publicou uma News Feature intitulada: Building the best cities for science. Which urban regions produce the best research - and can their success be replicated? (doi:10.1038/467906a; o pdf está livre no site).
Há algum tempo se observou que a maior parte das atividades científicas se concentra em algumas áreas metropolitanas (75 destes núcleos produzem cerca de 57% das publicações - 3,9 milhões de artigos entre 2006 e 2008). O ramo da ciência que mapeia os clusters de produção no espaço físico foi designado de 'spatial scientometrics', mas acho que a tradução de cientometria espacial é ambígua (a cientometria de artigos sobre ciência espacial? ou, em futuro próximo, de artigos produzidos no espaço?), pelo que prefiro a expressão cientometria geográfica.
O artigo busca analisar as características destes núcleos com a idéia que o entendimento do fenômeno pode ajudar a criação, ou planejamento de continuidade, de centros produtivos. Estudos anteriores se voltaram para análise de casos de sucesso enquanto este artigo faz uma análise mais abrangente ao usar comparações entre todos os centros mais produtivos. Vale a pena tomar cuidado com vários aspectos metodológicos: a identificação de cidades nas publicações não é tão precisa, assim como a determinação do número de pesquisadores ou de investimento. Pra além disto, o conceito de clusters de produção científica não é definido rigidamente por cidades, inclui cidades próximas. Bethesda é uma cidade do estado de Maryland mas incluído no cluster de Washington DC, por exemplo. Copenhague na Dinamarca e Malmö, na Suécia, integram o mesmo cluster depois da construção de uma ponte que as une. 
Veja no gráfico acima do post que estes clusters têm trajetórias e escolhas distintas. Austin investe em qualidade (eixo Y, impacto relativo de citação) mas que em quantidade (eixo X, número de artigo), enquanto Pequim mostra um esforço quantitativo não igualado pelo indicador de qualidade.  Mais uma vez devemos ressaltar os cuidados de análise devido à metodologia. O parâmetro de impacto relativo de citação contempla adequadamente o crescimento recente da ciência sínica? Para ilustrar, os chineses estão mesmo interessados em ciência básica forte citável ou em inovação tecnológica, patentes e geração de riqueza?
O artigo comenta também o que torna as cidades atraentes para a permanência dos cientistas líderes (neste caso baseado em estudo de caso já publicados). Como este é um aspecto importante, cito só os principais: freedom, funding and lifestyle. Liberdade de pesquisar segundo suas próprias idéias; Financiamento e infra-estrutura capaz de permitir a investigação com perguntas de ponta e qualidade de vida na cidade.
Como esperado, não há uma conclusão absoluta. A leitura do artigo é interessante e instrutiva, pode ajudar a decisão e planejamento.
Algo do apresentado no artigo explica a concentração científica observada no Brasil? 

domingo, 24 de outubro de 2010

Educação Moderna, por Quino

Há poucos dias, divulgamos a excelente video-animação do RSA, com Sir Ken Robinson, sobre a Necessidade de Mudança no Paradigma da Educação. O material, numa carona de um twit de Cristina Caldas, é imperdível.
Voltamos ao tema da educação, num cartoon genial de Quino (carona do De Rerum Natura). 



Admiro muito os desenhos de Quino desde os tempos de Mafalda
Imagino que os leitores (jovens) possam desconhecer Mafalda, pelo que coloco um desenho com ela sobre educação.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Necessidade de mudança no paradigma da educação


Seguindo um twit de Cristina Caldas, cheguei num vídeo muito bom sobre o desafio atual da educação.
O vídeo combina um excelente conteúdo com uma apresentação ótima.
Eu retuitei, com a indicação que se alguém fosse ver apenas uma vídeo-animação na semana, deveria ser esta. Na verdade, se for ver um em todo o mês, a indicação continua.



"This animate was adapted from a talk given at the RSA by Sir Ken Robinson, world-renowned education and creativity expert and recipient of the RSA's Benjamin Franklin award."

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dia Mundial da Estatística


Realmente, todos os dias são dias de muitas coisas. Acabo de descobrir que hoje é o Dia Mundial da Estatística.

Do site WSD 2010:

WHY A WORLD STATISTICS DAY?


The celebration of the World Statistics Day will acknowledge the service provided by the global statistical system at national and international level, and hope to help strengthen the awareness and trust of the public in official statistics. It serves as an advocacy tool to further support the work of statisticians across different settings, cultures, and domains.

WHAT TO EXPECT


On World Statistics Day, activities at national level will highlight the role of official statistics and the many achievements of the national statistical system. International, regional and sub-regional organizations will complement national activities with additional events.


A programação do dia em vários países está no site. A programação do Brasil:
Brazilian Institute of Geography and Statistics - IBGE, through its National School of Statistical Sciences - ENCE, has the pleasure of inviting all to its commemorative activities, which will take place in its auditorium, located on level 3 of its building at Rua André Cavalcanti, 106, Santa Teresa, Rio de Janeiro, Brazil.
Program of the event:
15 h – Opening ceremony
15:30 - 16:45h - Conference 1 Title: Official Statistics and the 2010 Brazilian Population Census Speakers: Zélia Bianchini, IBGE, Deputy Director for Surveys, and Marco Antonio dos Santos Alexandre, Technical Coordinator of the 2010 Population Census.
17:00 - 18:15h - Conference 2 Title: Anthropometry and nutritional situation in Brazil: methodology, index and secular tendency. Speaker: André Luiz Martins Costa, IBGE – Family Budget Survey Team, Directorate for Surveys.
18:15 - 18:45h - Coffee break
18:45h - 20h - Conference 3 Title: Statistical modeling to predict the outcome of sports games: The case of World Cup 2010 Speaker: Francisco Louzada Neto – Statistics Department - Federal University of São Carlos.
20h – Closing.

Pelo programa do Brasil e mais alguns textos do site do WSD 2010, acho que não é bem o dia da estatística, mas o dia de dados demográficos do países o que realmente se celebra neste evento. É importante, claro, mas muito menor que ESTATÍSTICA.

Pesquisa em Saúde no Brasil e na Espanha

Apresentação feita em 19.10.2010 na inauguração do Centro de Estudos e Pesquisas Ramon y Cajal do Hospital Espanhol de Salvador-Bahia.
A convite do colega Fabio Vilas-Boas, falei sobre a situação da pesquisa médica na Espanha e no Brasil, na solenidade de início das atividades do Centro. 
Na mesa de abertura estavam D. Manuel Antas, presidente da Real Sociedade Espanhola de Beneficência;  D. Jacobo González-Arnao Campos, Consul Geral da Espanha na Bahia e os colegas Andrés Alonso, representando o Gov. Jaques Wagner;  Angelo Castro Lima, Superintendente Médico do Hosp. Espanhol; Carlos Marcílio, Diretor Científico do Hospital, além de Fábio Villas-Boas, coordenador do Serviço de Cardiologia e empossado Diretor do Centro de Estudos e Pesquisas.



Foi um grande prazer encontrar vários colegas e sentir o clima positivo sobre as perspectivas do Hospital.
Votos de sucesso ao Centro.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Progressos na vacina contra tuberculose


ResearchBlogging.org
Post de Theolis Barbosa Bessa
Publicado originalmente no SBlogI
A tuberculose está entre as doenças infecciosas prioritárias para o desenvolvimento de vacinas, pela quantidade de pessoas infectadas com o bacilo, que podem evoluir para a doença ativa, pelo longo tratamento com drogas tóxicas, pela gravidade dos casos de co-infecção com o vírus da imunodeficiência humana adquirida (HIV), e pelo preocupante aumento do número de casos resistentes ao tratamento (levando à necessidade de esquemas alternativos ainda mais prolongados e de mais elevada toxicidade). 
O estudo de proteínas abundantemente secretadas em filtrados de cultura do agente etiológico da tuberculose, o Mycobacterium tuberculosis, levou à identificação do complexo proteico antígeno 85 e de proteínas de baixo peso molecular que se demonstrou serem capazes de elicitar intensa resposta proliferativa e de produção de IFN-gama em culturas de células humanas do sangue periférico provenientes de pacientes com tuberculose ativa ou latente [1,2]. Dentre estas proteínas estão antígenos que atualmente fazem parte de promissores candidatos vacinais, os quais têm avançado do estágio de desenvolvimento pré-clínico para os ensaios clínicos, a exemplo de vacinas de vírus recombinantes como MVA85A (vacina com o vírus vaccinia Ankara modificado expressando o antígeno micobacteriano Ag85A) [3] e AERAS-402 (vacina com o adenovírus 35 expressando os antígenos micobacterianos Ag85A, Ag85B e TB10.4) [4], e a vacina de antígeno protéico recombinante Ag85B-ESAT-6 (composta por proteína recombinante de fusão destes antígenos, denominada H1, adjuvantada com IC31®) [5]. 
O estudo de Betholet e colaboradores [6] apresenta dados de avaliação pré-clínica de uma proteína de fusão composta por quatro antígenos de M. tuberculosis. De forma não muito diferente do exposto em relação aos estudos acima, a seleção dos antígenos vacinais foi realizada por escrutínio de antígenos secretados (ou com sinal para secreção) em culturas do bacilo, porém adicionalmente expressos por M. tuberculosis crescendo em macrófagos e/ou modulados em culturas do bacilo sob condições de hipóxia, ou ainda associados às classes imunogênicas EsX e PE/PPE [7]. Quatro antígenos capazes de induzir produção de IFN-gama em culturas de células periféricas de indivíduos saudáveis infectados com a forma latente da tuberculose, mas não em indivíduos não infectados, e capazes de induzir redução significativa da carga bacteriana ao serem administrados profilaticamente a camundongos posteriormente infectados com M. tuberculosis virulento, foram combinados em uma vacina de proteína recombinante de fusão (ID93) adjuvantada com uma nanoemulsão de monofosforil lipídeo A (MPL) sintético [6]. 
A grande novidade do estudo está na abordagem da avaliação do potencial promissor dos mesmos, que justifica a sua publicação em uma revista de medicina translacional. Além da clássica abordagem experimental de infecção de camundongos, porquinhos da índia e macacos cinomólogos com o bacilo virulento laboratorial M. tuberculosis H37Rv, os autores avaliam a eficácia vacinal contra uma cepa proveniente de um isolado clínico de M. tuberculosis multidroga-resistente não-W Beijing, em uma abordagem de prime-boost heterólogo que utiliza o Bacilo de Calmette-Guérin (BCG) como vacinação inicial (o que se aproxima da situação que provavelmente será encontrada nos países de alta endemicidade da doença, onde as crianças recebem a BCG nos primeiros anos de vida). 
A vacina foi demonstrada como imunogênica para células do sangue periférico de humanos saudáveis infectados com a forma latente de tuberculose, e nos três modelos animais estudados. Ela também mostrou capacidade de induzir o aumento da proporção de clones de células T CD4+ multifuncionais produtores simultaneamente de IFN-gama e TNF, o qual estava associado a uma diminuição da carga bacilar em camundongos infectados quer com a cepa laboratorial, quer com o isolado clínico. A vacina também foi capaz de conferir proteção de longo prazo a porquinhos da índia vacinados e infectados 4 meses depois, em termos de mortalidade, perda de peso e escore histopatológico das lesões pulmonares e no fígado. 
Com os primeiros ensaios clínicos já com resultados preliminares publicados, acirra-se a corrida pela validação de uma nova vacina contra a tuberculose, segura e que demonstre eficácia mais uniforme em diferentes populações humanas, em especial populações de áreas onde a doença é endêmica e altamente prevalente. Um exemplo do que o grande esforço de financiamento de pesquisas básicas e aplicadas pode fazer em benefício da saúde humana, contra um flagelo que persegue a humanidade desde os primórdios da sua existência.
[1] A.S. Mustafa, Development of new vaccines and diagnostic reagents against tuberculosis, Mol. Immunol. 39 (2002) 113-119.
[2] R.L. Skjøt, T. Oettinger, I. Rosenkrands, P. Ravn, I. Brock, S. Jacobsen, et al., Comparative evaluation of low-molecular-mass proteins from Mycobacterium tuberculosis identifies members of the ESAT-6 family as immunodominant T-cell antigens, Infect. Immun. 68 (2000) 214-220.
[3] T.J. Scriba, M. Tameris, N. Mansoor, E. Smit, L. van der Merwe, F. Isaacs, et al., Modified vaccinia Ankara-expressing Ag85A, a novel tuberculosis vaccine, is safe in adolescents and children, and induces polyfunctional CD4+ T cells, Eur. J. Immunol. 40 (2010) 279-290.
[4] B. Abel, M. Tameris, N. Mansoor, S. Gelderbloem, J. Hughes, D. Abrahams, et al., The novel tuberculosis vaccine, AERAS-402, induces robust and polyfunctional CD4+ and CD8+ T cells in adults, Am. J. Respir. Crit. Care Med. 181 (2010) 1407-1417.
[5] J.T. van Dissel, S.M. Arend, C. Prins, P. Bang, P.N. Tingskov, K. Lingnau, et al., Ag85B-ESAT-6 adjuvanted with IC31 promotes strong and long-lived Mycobacterium tuberculosis specific T cell responses in naïve human volunteers, Vaccine. 28 (2010) 3571-3581.
[6] S. Bertholet, G.C. Ireton, D.J. Ordway, H.P. Windish, S.O. Pine, M. Kahn, et al., A Defined Tuberculosis Vaccine Candidate Boosts BCG and Protects Against Multidrug-Resistant Mycobacterium tuberculosis, Sci Transl Med. 2 (2010) 53ra74.
[7] S. Bertholet, G.C. Ireton, M. Kahn, J. Guderian, R. Mohamath, N. Stride, et al., Identification of Human T Cell Antigens for the Development of Vaccines against Mycobacterium tuberculosis, J Immunol. 181 (2008) 7948-7957.


Bertholet, S., Ireton, G., Ordway, D., Windish, H., Pine, S., Kahn, M., Phan, T., Orme, I., Vedvick, T., Baldwin, S., Coler, R., & Reed, S. (2010). A Defined Tuberculosis Vaccine Candidate Boosts BCG and Protects Against Multidrug-Resistant Mycobacterium tuberculosis Science Translational Medicine, 2 (53), 53-53 DOI: 10.1126/scitranslmed.3001094
Ilustração. Fig. 3 do trabalho 6 comentado no post.

Novos rumos para vacina contra o HIV


Post de Ricardo Khouri
Publicado originalmente no SBlogI.
A entrada de agentes microbiológicos nocivos ao nosso organismo desperta um complexo sistema de defesa imunológica que será estabelecida afim de delimitar e eliminar o invasor. O desenvolvimento de uma resposta imune eficiente e duradoura contra estes agentes microbianos depende principalmente de três personagens centrais: antígenos, células apresentadoras de antígenos (ex. células dendríticas plasmacitóides e mielóides) e linfócitos (ex. células T CD4+ e T CD8+). 
As células dendríticas são as responsáveis por capturarem e processarem os antígenos invasores, apresentando-os em sua superfície como complexos MHC-peptídeo. Assim, os linfócitos podem reconhecer os peptídeos estranhos e se tornarem ativados desempenhando o seu papel efetor. Contudo, uma apresentação bem sucedida depende também de uma ativação das células dendríticas. Além de apresentarem os antígenos em sua superfície, as células dendríticas precisam secretar citocinas (IL-12 e IFN-alfa/beta) e expressarem moléculas co-estimulatórias (ex. CD80 e CD86) em sua superfície. A ativação das células dendríticas depende do reconhecimento de padrões moleculares associados aos patógenos (PAMPs-pathogen-associated molecular patterns) por receptores especializados (PRRs-pattern recognition receptors). Existem três classes bem estudadas de PRRs: os secretados (ex. Colectinas e ficolinas), os transmembranares (ex. TLRs/MyD88) e os citosólicos (ex. NLRs). 
Na infecção por HIV, os mecanismos que estimulam a resposta imune inata e levam ao desenvolvimento de uma resposta imune adaptativa ainda abrigam novas descobertas. O reconhecimento imune inato pode ser celular intrínseco ou celular extrínseco, necessitando ou não do estabelecimento da infecção para desencadear a resposta, respectivamente. Os mecanismos extrínsecos já foram descritos in vitro e in vivo nas infecções por HIV. In vitro, o HIV-1 pode ativar células dendríticas plasmacitóides através de TLR7 e TLR9 e induzir a produção de IFN-alfa. Porém, no modelo in vivo murino, a resposta imune protetora contra a infecção por Friend murine leukemia vírus foi parcialmente dependente de MyD88 para resposta imune adaptativa celular, sugerindo um outro mecanismo de reconhecimento diferente de TLR ainda não descrito para os retrovírus. As células dendríticas mielóides parecem não expressar TLR9 e são portanto dificilmente estimuladas pelo HIV-1 extrinsicamente. Estas células, por sua vez, são altamente resistentes a infecção por HIV-1, encombrindo a descoberta de mecanismos de reconhecimento inato intrínseco.
Devido a ausência de Vpx no HIV-1, e presente no SIV e HIV-2, o grupo liderado por Dan R. Littman utilizou coinfecções HIV-1/SIV para promover a infecção de células dendríticas mielóides humanas pelo HIV-1. A infecção das células dendríticas mielóides induziu a ativação das células dendríticas com expressão de CD86 após 48 horas. Foi observado que as células dendríticas mielóides infectadas apresentavam um perfil de expressão gênica típico de indução por IFN do tipo I (IFN-alfa/beta), porém tardia quando comparada aos ligantes de Toll clássicos (LPS e Poli I:C). A fosforilação de STAT1 foi descrita apenas 22 horas após a infecção, enquanto LPS e Poli I:C induziram fosforilação de STAT1 nas primeiras duas horas. O uso de anticorpos bloqueadores contras os diferentes tipos de IFNs demonstrou o papel principal do IFN-beta na ativaçào das células dendríticas mielóides e na expressão das moléculas coestimulatórias. 
Com o intuito de se compreender em qual fase do ciclo de replicação viral acontece a ativação das células dendríticas mielóides, os autores utilizaram inibidores para transcriptase reversa (AZT-zidovudine) e integrase (raltegravir) nas primeiras 24 horas. O uso dos inibidores garantiram o bloqueio da transdução protéica viral e a não ativação das células dendríticas mielóides, indicando que a ativação celular acontece apenas após a integração viral. 
O próximo passo foi induzir mutações em diferentes regiões virais. A mutação da região Rev, responsável pela inibição da expressão de Gag preveniu a ativação das células dendríticas mielóides. Não obstante, a tentativa de mimetizar o efeito da expressão de Gag tratando as células com partículas do capsídeo do HIV-1 falhou quanto a indução das células. Estes resultados indicaram a necessidade da nova síntese de Gag para ativação das células dendríticas explicando o atraso na fosforilação de STAT1. 
A seguir foram realizadas mutações nas proteínas do capsídeo viral. O mutante G89V, que apresenta um comprometimento na associação do capsídeo viral com CYPA, proteína fundamental no estabelecimento da infecção após a entrada do vírus, resultou numa redução na expressão de CD86. Em adição, o uso de inibidores químicos (ciclosporina A) e moleculares (RNAi) de CYPA apresentaram o mesmo efeito inibidor na expressão de CD86. 
Dessa maneira, descreve-se um papel conflitante da associação do CYPA com o vírus entre favorecer a infectividade viral ou a resposta imune do hospedeiro. Os resultados indicam, portanto, uma evolução da conformação do capsídeo que se opõe a pressões seletivas favoráveis a infectividade priorizando a furtividade do vírus. Sabe-se que a resposta aos IFN-alfa/beta dependem de fosforilação, dimerização e translocação para o núcleo do IRF3. Após a infecção de células dendríticas mielóides observou-se um acúmulo de IRF3 fosforilado no núcleo celular. A depleção do IRF3 inibiu a indução de CD86 nas células infectadas. 
Assim, a ativação de células dendríticas mielóides por HIV-1 depende da entrada do vírus e do estabelecimento da infecção com produção de novas proteínas virais do capsídeo que são reconhecidas pela ciclofilina A, CYPA. Este reconhecimento induz a produção de IFN-beta e consequentemente a fosforilação de IRF3, induzindo a expressão de moléculas coestimulatórias como o CD86. 
Por fim, o estudo do grupo de Littman et al, 2010, abordou os impactos do reconhecimento inato intrínseco na resposta imune adaptativa e no bloqueio do processo de infecção de células T CD4+ pelas células dendríticas que são capazes de circular no organismo carreando os vírus na sua superficie, processo descrito como “trans-enhancement”. O reconhecimento inato intrínseco foi capaz de induzir clones de células T CD4+ e T CD8+ produtoras de IFN-gama com atividade efetora especifica contra Gag estabelecendo portanto, uma resposta imune adptativa. Além do mais, foi capaz de bloquear o processo de “trans-enhancement” in vitro inibindo a infecção de novas células CD4+.
Assim, a incapacidade do HIV-1 frente ao HIV-2 de infectar células dendríticas favorece portanto a sua virulência e sinaliza novos mecanismos de manipulação para gerar novas vacinas contra o HIV-1.
Artigo 

ResearchBlogging.orgManel, N., Hogstad, B., Wang, Y., Levy, D., Unutmaz, D., & Littman, D. (2010). A cryptic sensor for HIV-1 activates antiviral innate immunity in dendritic cells Nature, 467 (7312), 214-217 DOI: 10.1038/nature09337

Outras Referências:
Banchereau J, Steinman RM. Dendritic cells and the control of immunity. Nature. 1998 Mar 19;392(6673):245-52. 
Goujon C, Jarrosson-Wuillème L, Bernaud J, Rigal D, Darlix JL, Cimarelli. A  With a little help from a friend: increasing HIV transduction of monocyte-derived dendritic cells with virion-like particles of SIV(MAC). Gene Ther. 2006 Jun;13(12):991-4. 
Iwasaki A, Medzhitov R. Regulation of adaptive immunity by the innate immune system. Science. 2010 Jan 15;327(5963):291-5. Review.

Como achar figuras de trabalhos na internet

Dica rápida. Saiu há pouco um trabalho interessante de busca de figuras científicas na internet com o sistema de ranqueamento.
PLoS ONE: Automatic Figure Ranking and User Interfacing for Intelligent Figure Search , (2010) PLoS ONE 5(10): e12983. doi:10.1371/journal.pone.0012983
No Abstract:
Figures are important experimental results that are typically reported in full-text bioscience articles. Bioscience researchers need to access figures to validate research facts and to formulate or to test novel research hypotheses. On the other hand, the sheer volume of bioscience literature has made it difficult to access figures. Therefore, we are developing an intelligent figure search engine (http://figuresearch.askhermes.org). Existing research in figure search treats each figure equally, but we introduce a novel concept of “figure ranking”: figures appearing in a full-text biomedical article can be ranked by their contribution to the knowledge discovery.”
É importante que o sistema identifica as figuras em acesso livre e que, assim, podem ser usadas em apresentações (citadas autoria e fonte).
Leia o artigo (aqui) ou veja o vídeo abaixo:

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Semana Nacional de Ciência e Tecnologia

Começa hoje a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (18 a 24/10). 
Veja o site nacional (aqui).

"A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de 2010 ocorrerá entre 18 e 24 de outubro de 2010. O tema principal será: “Ciência para o Desenvolvimento Sustentável”. Além de promover atividades as mais diversas de divulgação científica, estimularemos na SNCT 2010 a difusão dos conhecimentos e o debate sobre as estratégias e maneiras de se utilizar os recursos naturais brasileiros e sua rica biodiversidade com sustentabilidade, sempre de forma conjugada com a melhoria das condições sócio-econômicas de sua população."

Veja abaixo o convite para a SNCT na Bahia

Confesso um certo desanimo com uma programação tão pouco robusta na Bahia.  Muito pouca ciência, com predomínio de uma visão utilitária da ciência.
Nada consta, neste programa ao menos, de atividades dos grupos mais ativos em C&T na Bahia. 

Ao Dia do Médico






"Sempre tratei os meus doentes com igual cuidado, quer fossem pobres ou nascidos em nobreza, sem procurar saber se eram hebreus, cristãos ou sequazes da lei Maometana; 
Sempre fui parcimonioso nos honorários e muitas vezes sem qualquer paga, tendo sempre mais em vista que os doentes recobrem a saúde do que tornar-me rico pelos seus dinheiros. 
Como autor de escritos médicos e ao publicar os meus livros, quis só promover que a fé intacta das coisas chegasse ao conhecimento dos vindouros, sem outra ambição que não fosse contribuir de qualquer modo para a saúde da humanidade, sem nada fingir, acrescentar ou alterar em minha honra."
Amato Lusitano (1511-1568)

O blog homenageia o colega Jackson Costa que segue fiel a estes princípios, assim como outros grandes médicos colaboradores do LIMI e do LIP que são exemplo para a classe médica.
Aldina e Manoel Barral

Ilustração: Capa Centuria de Curas Medicinais de Amato Lusitano

domingo, 17 de outubro de 2010

XII Reunião Nacional de Pesquisa em Malária - II

Post de Vitor Mendonça
O Plasmodium vivax foi certamente o grande enfoque da XII Reunião Nacional de Pesquisa em Malária que aconteceu no período entre 03 e 06 de outubro em Ouro Preto. Não seria mera coincidência escolher esta espécie do parasita, visto que cerca de 80% dos aproximadamente 300.000 casos da doença no Brasil foram causados pelo P. vivax em 2009. Grandes nomes da literatura nacional e internacional estiveram presentes no evento: Marcelo Jacobs-Lorena, Carolina Barillas, John Barnwell, Fidel Zavala, Luiz Hildebrando, Patrick Duffy, Marcelo Ferreira, dentre outros grandes malariologistas. Em especial destaque me refiro à Antoniana Krettli, pesquisadora do CPqRR-FIOCRUZ-MG, a grande homenageada do evento. Todos os ilustres pesquisadores e estudantes abrilhantaram e contribuíram para tornar a Reunião em um encontro científico de altíssima qualidade.
Dentre os diversos temas abordados e apresentados, especial atenção dou ao trabalho desenvolvido no LIMI/CPqGM-FIOCRUZ-BA sobre biomarcadores de gravidade na malária por P. vivax. A Bahia, com os trabalhos de alta relevância científica do LIMI, vem ganhando evidência na pesquisa em malária. Contudo, as temáticas que nortearam o encontro foram, seguramente, a biologia molecular e desenvolvimento de vacinas. 
A malária é um capítulo à parte na pesquisa cientifica mundial. Esta doença infecto-parasitária é responsável pelo trabalho de muitos pesquisadores, estudo de diversas teses de mestrado e doutorado e tema de milhares de publicações científicas. Entretanto, muitos aspectos da doença - tanto referentes ao hospedeiro, vetor ou parasita – permanecem obscuros. Ainda há muito a se desvendar da malária e uma vacina efetiva ainda permanece em estudos. 
A XII Reunião Nacional de Pesquisa em Malária com certeza destacou-se como um evento de grande importância mundial no estudo da malária. Parabéns à comissão organizadora e colaboradores que contribuíram para o sucesso do evento.
Algo da XII Reunião de Pesquisa em Malária já foi comentado no SBlogI (aqui) e neste blog (aqui).

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Água: tema do Blog Action Day 2010



Post de Camila Indiani de Oliveira
O Blog Action Day é um evento anual que reúne os blogueiros do mundo para que todos escrevam sobre um mesmo assunto, no mesmo dia. Quem sabe  ascendendo uma centelha de discussão global e, possivelmente, levando a ações concretas.
Neste ano, o tema escolhido foi a água. Por que a água? Neste momento, quase um bilhão de pessoas no planeta não têm acesso a água limpa e potável. Isso significa que uma a cada oito pessoas está sujeita a infecções por causa de algo que todos temos como óbvio. A água e o acesso a ela não é somente uma questão de direitos humanos, é também meio ambiente, é sustentabilidade, é global e afeta todos nós.
Um artigo recente (aqui) tratou do efeito do aquecimento ambiental sobre os recifes de coral. Os corais reagem ao aquecimento extremo desbotanto (bleaching) e entrando em modo de sobrevivência. Isso se deve ao aumento no metabolismo das algas, co-habitantes dos corais juntamente com os pólipos, gerando toxinas. As algas são “cuspidas” para fora dos corais e os pólipos restantes ficam "nus", sem a relação de simbiose antes estabelecida com as algas. O fenômeno de bleaching vem ocorrendo desde 1983, de maneira intermitente. Está claro que a variabilidade natural no clima desempenha um papel no superaquecimento dos corais. No entanto, o fenômeno tem sido mais recorrente do que o esperado. O recife de coral pode ou não se recuperar deste ataque e isso afeta não somente os ecossistemas mais ricos como também os cardumes que alimentam milhões de pessoas, ou seja, todos nós.
Além do aquecimento global, fruto da ação do homem ou fenômeno cíclico, ainda estamos sujeitos aos desastres ambientais. No caso do Golfo do México, vimos os danos diretos sobre a fauna e sobre a economia local e muitos colocaram em xeque a exploração de petróleo off-shore e os riscos inerentes associados. Nestas situações de crise, as causas ambientais aparecem na mídia, todos querem salvar o mundo, derrubar as grandes corporações e abraçar as árvores. Ao mesmo tempo, consumimos  e descartamos plástico ad libitum. Muito desse plástico vai parar os oceanos contribuindo ainda mais para o crescimento daquela enorme “estrutura” de lixo que flutua no Pacífico (Great Pacific Garbage Patch) e, agora, no Atlântico.
O ponto final é que ficamos indignados com as questões majoritárias, seja o aquecimento global, seja os desastres ambientais, mas não consideramos o que pode ser feito individualmente. “There are no passengers on Spaceship Earth. We are all crew”.


A Academia Brasileira de Ciências promoveu há pouco o  simpósio Promovendo o Acesso à Água de Boa Qualidade: Perspectivas da África e das Américas e os informes podem ser vistos no site da ABC (aqui).


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Quer emagrecer? Durma mais, porém com a luz apagada


ResearchBlogging.org
Há várias indicações de como perder peso. Comer pouco é, seguramente, a mais acertada. Porém, o que é comer pouco? Quase todos os obesos afirmam comer pouco. Além da quantidade, há a questão da composição da alimentação. São muitas e variadas as dietas que levam à perda de peso. Contudo, o desfecho parece preocupantemente homogêneo: todas as dietas promovem redução de peso, mas a perda é transitória. Após um lapso variável de tempo, os quilos estão de volta. Ou seja, não dá para encarar a dieta como passageira, precisaria haver uma mudança sustentada e definitiva de quantidade e composição da sua alimentação. Isto é muito mais simples de dizer (ou escrever) que de fazer.
Uma notícia interessante, em aspecto que já se conhece há algum tempo, vem de um trabalho do centro médico da Universidade de Chicago (aqui): a perda de peso depende das horas de sono. A princípio, o fato de perder peso durante o sono pode parecer paradoxal. Ninguém pratica exercício dormindo… Pense, de outra maneira, também não se come durante o sono. O que realmente ocorre?
Já havia sido demonstrado que homens jovens e sadios com sono de apenas 4 horas por duas noites apresentam queda dos níveis de leptina, um hormônio relacionado com a saciedade, e aumento de grelina, hormônio que dispara a fome (Ann Intern Med 141:846-850, 2004). Contudo, um experimento de duração tão curta não assegura que tais alterações permanecem caso ocorra a privação de sono por um período prolongado. Poderia ocorrer um reequilíbrio do sistema. Adicionalmente, também não se pode assegurar que estas alterações hormonais levem a modificações capazes de se manifestar no equilíbrio energético e variação de peso.
No dia 5 deste mês, o mesmo grupo publicou um artigo no qual testa por períodos mais longos a privação do sono e analisa em relação ao peso (Ann Intern Med 53: 435-441, 2010).  A nova publicação incluiu mulheres e homens (com sobrepeso e não fumantes) e relata um estudo randomizado com dois períodos e duas condições com cross-over. Os voluntários foram submetidos a uma restrição calórica moderada e durante um período dormiam 8 horas e meia, enquanto no outro período dormia 5 horas e meia. Durante os dois períodos, a atividade física e dieta foram similares nos dois grupos. Os voluntários viveram, este período, num ambiente de hospital, para que fosse possível assegurar a similaridade da dieta e fossem aferidos com precisão as suas atividades físicas e horas de sono.
À primeira vista, o resultado foi desapontador: a perda de peso foi similar e não afetada pelo tempo de sono. Porém a diferença foi importante no tipo de perda de peso. Durante o tempo adequado de sono, metade da redução de peso ocorreu às custas de perda de gordura. Durante o período de privação do sono, somente um quarto da perda de peso se deveu à perda de gordura, havendo perda de massa muscular. 
Results: Sleep curtailment decreased the proportion of weight lost as fat by 55% (1.4 vs. 0.6 kg with 8.5 vs. 5.5 hours of sleep opportunity, respectively; P = 0.043) and increased the loss of fat-free body mass by 60% (1.5 vs. 2.4 kg; P = 0.002). This was accompanied by markers of enhanced neuroendocrine adaptation to caloric restriction, increased hunger, and a shift in relative substrate utilization toward oxidation of less fat.”
Assim, parece que o sono contribui para a manutenção de massa corporal sem gordura, pelo menos durante períodos de restrição de energia. 
Durante a restrição de sono, houve, também neste estudo, aumento dos níveis de grelina e foi observada uma redução da taxa metabólica em repouso.  Para manter períodos de vigília maiores, há uma alteração de uso na fonte de energia. 
Ou seja, não é só porque o indivíduo acordado por um período maior tem mais tempo de visitar a geladeira, há, verdadeiramente, uma vantagem do sono para manter o metabolismo adequado. 
Tudo parece se confirmar. Lembram do post Cochilar é bom: Preguiça baseada em evidências científicas ?
Pouco depois, dia 11 deste mês, um outro estudo foi publicado sobre a influência da luz à noite sobre a massa muscular (PNAS, on line antes de impresso, DOI 10.1073/pnas.1008734107). Observe que este segundo estudo foi realizado em camundongos e seus resultados podem não ser diretamente extrapoláveis para o homem. 
A homeostase energética tem uma regulação circadiana e o nosso relógio biológico depende da luz. O nosso relógio biológico se localiza no hipotálamo e é sincronizado por informações obtidas por células sensíveis à luz localizadas na retina e transmitidas ao sistema nervoso central. Há estudos que demonstram que camundongos com mutações no seu relógio biológico são susceptíveis à obesidade. O nosso equilíbrio energético depende da iluminação, contudo a pergunta prática é: a exposição à luz durante a noite se relaciona com obesidade?
Os camundongos expostos a luz, mesmo que luz fraca, durante a noite apresentaram aumento de massa corporal e redução de tolerância à glucose em relação aos animais no ritmo normal de claro/escuro, embora todos tivessem a mesma ingesta calórica e nível de atividade.
These results suggest that low levels of light at night disrupt the timing of food intake and other metabolic signals, leading to excess weight gain. These data are relevant to the coincidence between increasing use of light at night and obesity in humans.
Considere os dois artigos em conjunto e analise os nossos hábitos atuais. Se dorme menos, pois há muito estímulo para atividades noturnas, em casa ou fora dela. Paralelamente, há uma maior oferta de energia elétrica o que leva a maior luminosidade noturna. Estes dois aspectos, podem contribuir (embora, evidentemente, não sejam únicos) para a epidemia de obesidade na sociedade moderna.
Assim, lembre que dormir bem e no escuro faz parte de uma dieta saudável. Ao contrário da maioria das recomendações para emagrecer, estas são duas medidas fáceis de adotar….
Ilustração: Morfeu e Iris, de Guerin (1811)

Spiegel K, Tasali E, Penev P, & Van Cauter E (2004). Brief communication: Sleep curtailment in healthy young men is associated with decreased leptin levels, elevated ghrelin levels, and increased hunger and appetite. Annals of internal medicine, 141 (11), 846-50 PMID: 15583226

Nedeltcheva AV, Kilkus JM, Imperial J, Schoeller DA, & Penev PD (2010). Insufficient sleep undermines dietary efforts to reduce adiposity. Annals of internal medicine, 153 (7), 435-41 PMID: 20921542

Fonken, L., Workman, J., Walton, J., Weil, Z., Morris, J., Haim, A., & Nelson, R. (2010). Light at night increases body mass by shifting the time of food intake Proceedings of the National Academy of Sciences DOI: 10.1073/pnas.1008734107